Lutando Para Salvar a Floresta: Entrevista com um Xamã Yanomami

kopenaDavi Kopenawa Yanomami, um xamã do povo Yanomami, que é por vezes chamado de Dalai Lama da floresta, visitou os Estados Unidos. A Survival International, uma organização que luta pelos direitos dos povos tribais, patrocinou a sua viagem e me convidou para entrevistá-lo por Skype.
Foi uma experiência fascinante e inspiradora e eu sou grata ambos ao Davi (como eu fui convidada para chamá-lo) e à Fiona Watson da Survival International, quem traduziu as minhas questões para o português e as respostas do Davi de volta ao inglês.
O Povo Yanomami – famoso aos estudantes de antropologia do mundo inteiro – são um grupo de aproximadamente 33 mil caçadores-colhedores e agricultores do cultivo coivara que vivem na Floresta Amazônica que inclui o Brasil onde o Davi nasceu e vive.
Esta floresta, nós sabemos, está sob uma severa ameaça ecológica. Este é o assunto que eu queria tratar com o Davi, porque enquanto xamã ou curandeiro, ele tem uma perspectiva distinta sobre o significado da floresta do que a maioria de nós tem. Para me preparar para a nossa conversa eu li extensas partes de “A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami”, um livro que resultou da colaboração entre Davi e o antropólogo Bruce Albert. Foi o material deste livro que direcionou as questões que eu levantei.
Barbara: Você poderia nos descrever algo sobre como é para você, um xamã, caminhar pela floresta e as coisas que você pode ver e ouvir?
Davi: Antes de tudo eu gostaria de dizer que meu nome é Davi Kopenawa Yanomami. Eu sou um xamã e eu curo as pessoas quando elas estão doentes; este é meu trabalho. Àqueles entre vocês que não conhecem sobre a floresta os Yanomami a chama de uhiri. Isto é muito importante. A floresta nos faz sentir bem. Quando nós os xamãs caminhamos pela floresta nós a agradecemos. A floresta traz benefícios a todos os povos indígenas, nós coletamos frutas, nós caçamos, nós comemos tudo o que ela oferece. Nós os xamãs compreendemos como a floresta ajuda os povos indígenas e não somente os povos indígenas, mas ela é importante a todos nós.
Barbara: Se eu compreendo corretamente os verdadeiros espíritos são os xapiri e estes são as imagens iluminadas e brilhantes. Eles são vitais à vida e de alguma forma separados dos próprios animais da floresta que costumavam ser pessoas nos dias passados. Está correta minha explicação e você poderia nos contar um pouco sobre o que você aprende com os xapiri?
Davi: Os xapiri são os espíritos xamânicos. É importante lhe dizer que Omama é o nosso criador, ele criou os Yanonamis, ele é o que nós chamamos de o líder dos xapiri. Ele os criou para os povos indígenas porque naqueles tempos, e eu diria que isto foi cerca de 500 anos atrás [embora] realmente nós não sempre contamos o tempo desta maneira, Omama está pensando sobre isso. Aí foi, nesta época, o começo da Terra, da floresta, quando o povo então nasceu.
A primeira criança nasceu e a primeira coisa que a mãe e o pai pensaram foi na saúde. Não havia saúde naquele tempo. No entanto, Omama era muito inteligente – ele criou os xamãs. A mãe disse ao seu marido, “O que nós faremos? Nós precisamos cuidar de nossas crianças.” Omama disse, “Eu criarei os xapiri da floresta, desta maneira não haverá problemas. Eu farei isso porque vocês precisam ter boa saúde.”
Então Omama fez os xapiri como animais, então eles aparecem como animais, por exemplo araras, papagaios, antas, macacos e muitos outros animais. Então estes animais são como espíritos mas eu não gosto de chamá-los assim; eu os chamo de xapiri mas eles não são realmente espíritos, na realidade existem xapiri em todos os lugares, nas montanhas e nas florestas, eles estão em toda parte. Omama os fez para os Yanomamis e para todas as outras pessoas, nós os xamãs usamos a força dos espíritos.
Barbara: Existem animais específicos na floresta que você se conecta mais prontamente?
Davi: Os animais importantes para nós, eles vivem nas montanhas sagradas, então de fato estes xapiri não são animais como aqueles que eu mencionei – o macaco ou a arara ou o papagaio – eles são parecidos mas não são os mesmos. Estes xapiri não se mostram, só o fazem aos xamãs, somente aos xamãs Yanomamis, então apenas estes xamãs sabem onde eles vivem. Eles são muito especiais e os mais importantes, e eles não se mostram a ninguém mais. Nós os xamãs, eles nos aparecem quando tomamos a yakoana, apenas depois disso eles se mostram. Eles são muito especiais porque nós os usamos como um medicamento e nós sanamos e curamos como doutores.
Barbara: O que nós podemos fazer neste país para proteger a natureza, a ecologia e as florestas? Como podemos aprender com o seu conhecimento?
Davi: Existem pouquíssimas pessoas nas cidades que pensam bem e que pensam coisas boas da natureza. Por exemplo existem muitas pessoas ricas, elas tem carros, aviões e armas, mas elas não pensam. De verdade, tudo o que elas pensam é em destruir a natureza. Nós os povos indígenas e vocês, algumas das pessoas não-indígenas, nós todos estamos pensando sobre a paz, nós devemos manter a floresta em pé igualzinho ela era quando ela nasceu. É muito importante para as nossas crianças e para a nossa floresta.
Eu digo a vocês que estão interessados e preocupados com a natureza, vamos lutar juntos. As pessoas que eu vi nas cidades dos Estados Unidos, existe pouca natureza e pouquíssima floresta [onde elas vivem]. Eu sou um Yanomami que defende a natureza. A natureza é uma pessoa que traz saúde e felicidade e ela traz chuva e vento e ela é uma coisa muito boa. Nós estamos defendendo os pulmões do mundo e elas são muito importantes a vocês [também].
Vocês, os não-indígenas que querem nos ajudar, vocês tem que defender a floresta conosco para que nós não soframos. Porque isto é importante para todos nós.
“Vamos lutar juntos.” Que impacto aquela simples declaração teve sobre mim, depois de falar com Davi e ver de primeira-mão que ele é um homem de determinação e carisma – um carisma que ultrapassou as fronteiras da língua prontamente.
O ativismo de Davi nos lembra que, aqui nos Estados Unidos, nós causamos um impacto estrondoso através do planeta, afetando milhões, incluindo os povos indígenas que compreendem e dependem da floresta de tantas maneiras.
Minha conversa com o Davi me ressoou alguns dos temas que aprendi lendo o fascinante novo livro do antropólogo Eduardo Kohn, “Como a Floresta Pensa”, que eu revisei para a Times Literary Supplement na semana passada, Kohn também traz vitalidade à floresta – neste caso a floresta que cerca o povo Runa do Equador – e os seus animais, que o Kohn argumenta, pensam sem linguagem. ‘O mundo além do humano não é um mundo insignificante feito significativo pelos humanos’, escreve Kohn.
O coletivo de trabalho – Davi Kopenawa, Survival International, Eduardo Kohn – importa para a saúde do nosso planeta. Eu pedi ao antropólogo William Fisher, que trabalhou e escreveu sobre os povos amazônicos por muitos anos e que é meu colega na Faculdade de William e Mary, para comentar sobre as observações de Davi e ele pontuou as mesmas coisas, mas de maneira refinada.
“Davi Yanomami nos diz, como faria a maioria dos povos amazônicos, que não importa quem você é ou qual tecnologia você possua. O que importa é como você vive a sua vida e por quem você é responsável, ou seja, os seus filhos! (Esta é uma das razões porque é importante ouvir a estória sobre Omama.)”
“Para cumprir com este compromisso você precisa trabalhar com a natureza, mesmo quando isto continua remoto e difícil de enxergar. Eu tenho que rir porque isto é claro para qualquer um que tenha comparado a vida na cidade com aquela dos nativos da Amazônia. O meio-ambiente da floresta requer muito mais atenção ativa e estimula muito mais o seu pensamento. Não apenas porque ela é cheia de perigos, mas porque ela sempre oferece algo valioso, se você simplesmente está apto para perceber. É muito complexo.”
Eu gosto de uma distinção Bill explanou entre a maneira de Davi de pensar e uma abordagem mais comum que emana do ocidente.
“Na luz da experiência dos povos indígenas, e dos Yanomamis em particular, com as selvagerias perpetuadas pela civilização, a oferta de Davi Yanomami de uma aliança para conservar a natureza é generosa. No entanto a sua oferta é muito diferente da maneira que nós pensamos sobre ajudar o desenvolvimento, quer dizer, nas bases da superioridade tecnológica ocidental ou mesmo em um compromisso ético. É provável que nós teremos que desenvolver novas formas de organização para sermos bem-sucedidos. O Estado Nação não é um bom sistema para a aliança visada por Davi porque a política é sempre segregadora, contrastando o interesse de um grupo sobre o de outro. Nós teremos que ser capazes de argumentar em favor do bem-estar das pessoas mais do que o uso de crescimento econômico como um representante disso.”
No final aqui está o que nós aprendemos com Davi: O conhecimento dos povos indígenas podem derivar de fontes que nós do Ocidente podemos não achar fácil de compreender completamente, mas este conhecimento deveria ser reconhecido. Como o Davi diz nas páginas de “A Queda do Céu”:
“Apenas porque nossos anciãos não tiveram escolas isso não significa que eles não estudaram. Nós somos outros povos. Nós aprendemos com o yakoana e os espíritos da floresta… Esta tem sido deste sempre a nossa maneira de nos tornarmos sábios.”
Espero que a visão de Davi seja uma fonte de inspiração enquanto todos nós trabalhamos para encontrar soluções às questões complexas no cerne de salvar as florestas, e as pessoas e animais que dependem delas.

Por Barbara J. King http://www.npr.org/blogs/13.7/2014/05/01/308362560/fighting-to-save-the-forest-interview-with-a-yanomami-shaman

Tradução de José Jefferson para Redação Yandê

Anúncios

Queremos sua opinião.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s