Autodemarcação Munduruku continua com força total

Os Munduruku do Rio Tapajós, sudoeste do Pará, iniciaram corajosamente a autodemarcação da Terra Indígena Sawre Muybu, cansados de aguardar autoridades em Brasília.

O povo Munduruku conta com o apoio de toda população indígena e não-indígena na divulgação de sua causa, e têm lançados cartas informativas sobre a situação que enfrentam.

Leia, entenda e divulgue a última carta.

IV CARTA DA AUTODEMARCAÇÃO

Nós Munduruku, do alto e médio Tapajós, estamos dando continuidade com a segunda etapa da autodemarcação IPI WUYXI IBUYXIM IKUKAP- DAJE KAPAP EYPI.

Em cinco dias na floresta, concluímos seis pontos da autodemarcação e presenciamos rastros de destruição, feitos pelos ladrões invasores de nossas terras: madeireiros, palmiteiros e grileiros.

No segundo dia, acompanhando o rastro dos madeireiros, encontramos dificuldades para a alimentação, estávamos há dois dias sem encontrar caça. A gente sabe que onde há presença de zoada de trator, de moto-serra, e com a circulação de pessoas no ramal a caça fica extinta, esses animais não suportam sentir esse cheiro humano. Estamos falando a respeito disso em razão de presenciar essa cena durante a autodemarcação.

Depois que a gente varou no ramal dos madeireiros, vimos uma trilha, uma ponte, que eles fazem para carregar madeira e palmito de açaí. Vimos também a roça deles. Isso aqui é uma estrada para puxar madeira e palmito. Como a gente está autodemarcando agora, percebemos que está dentro da nossa área.

Estamos vendo aqui a destruição que o pessoal está fazendo no açaizal. Quem começa tudo isso são os madeireiros. Eles fazem o ramal e os palmiteiros vem atrás destruindo o açaizal. A gente estava preservando para tirar o açaí para os nossos netos, estamos vendo que não temos mais quase nada na nossa terra. Daqui que a gente tira a fruta para dar o suco aos nossos filhos e agora estamos vendo a destruição. Sempre dizemos que o pariwat (branco) não tem consciência disso.

Por isso que estamos fazendo a autodemarcação, porque os pariwat estão destruindo as árvores, nós não fazemos ao modo deles. A intenção do pariwat e do governo federal é só destruir mesmo, e a intenção do indígena é preservar. Por que a gente preserva? Porque esse patrimônio foi dado a nós por nosso guerreiro Karosakaybu, a terra é a nossa mãe de onde tiramos nossa sobrevivência e onde podemos viver de acordo com a nossa cultura.

Daje Kapap Eypi é um lugar sagrado para todo o povo Munduruku, seja do alto ou médio Tapajós. Temos que preservar a nossa natureza, o nosso rio, os nossos animais e as nossas frutas, deixadas por Karosakaybu.

Estamos realizando a autodemarcação para mostrar que essa terra é nossa, para que os brancos respeitem a nossa terra. Queremos ter autonomia em nossa terra, queremos que nós, indígenas, possamos ser os fiscais e protetores dessa terra como sempre fomos.

Continuamos aqui na autodemarcação e não sabemos o que vamos encontrar pela frente…

Sawe!

11 de julho de 2015, aldeia Sawre Muybu, médio Rio Tapajós.

Conheça a luta Munduruku que toma nova força.

Em outubro de 2014 o povo Munduruku deu início à autodemarcação da Terra Indígena (TI) Sawré Muybu, localizada na margem direita do rio Tapajós, na Amazônia brasileira [1]. Apesar da ocupação tradicional da terra pelos Munduruku já ter sido reconhecida pela Fundação Nacional do Índio (Funai), que concluiu em 2013 o documento que identifica e delimita a TI [2], o processo de Sawré Muybu segue paralisado. Nem mesmo ordens da justiça brasileira para retomar imediatamente a demarcação foram suficientes para destravar o processo e garantir o direito constitucional, originário, dos Munduruku sobre a sua terra [3]. O motivo: o governo brasileiro quer implementar a qualquer custo, em toda a bacia do Tapajós, um complexo hidrelétrico que inclui uma usina dentro da região de Sawré Muybu. Em setembro de 2014 a então presidente da Funai Maria Augusta Assirati admitiu para os Munduruku que seria essa a razão para a paralisação do processo [4].

Sabendo dos entraves políticos, cansados de esperar o governo cumprir o seu papel e preocupados com os danos à terra provocados por invasores (madeireiros, grileiros, palmiteiros e outros), os Munduruku resolveram fazer eles mesmos a demarcação e a proteção do seu território. Desde que começaram, já publicaram três cartas (1a, 2a, 3a – https://autodemarcacaonotapajos.wordpress.com/2014/11/18/carta-da-auto-demarcacao/https://autodemarcacaonotapajos.wordpress.com/2014/11/24/carta-ii-da-autodemarcacao/https://autodemarcacaonotapajos.wordpress.com/2014/11/30/iii-carta-da-autodemarcacao-do-territorio-daje-kapap-eypi/) e, entre outros documentos (blog da autodemarcacão – https://autodemarcacaonotapajos.wordpress.com/ – e documentário sobre a luta Munduruku, por Nayana Fernandez – https://vimeo.com/112160970).

Conheça abaixo a 4ª carta da autodemarcação, escrita pelos Munduruku em Sawré Muybu. Apoie essa luta, ajudando a circular as palavras desses guerreiros e guerreiras.

[3] Confira um breve resumo sobre os direitos constitucionais dos povos indígenas no Brasil, em inglês – “Constitutional rights of the indigenous peoples” – http://pib.socioambiental.org/en/c/direitos/constituicoes/introducao

[4] link para matéria da Pública sobre o RCID e Assirati: http://apublica.org/2014/12/relatorio-funai-determina-que-terra-e-dos-munduruku/

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