VEJA: Revista mente sobre os Kuarup no Xingu

Kuarup nos Kuikuro

Por Makely Ka

Foi publicada na imprensa (Revista Veja e outros veículos) uma nota completamente fantasiosa e deturpada sobre que aconteceu na aldeia dos Kuikuro durante o Kuarup que ocorreu entre os dias 22 e 23 de agosto.

VEJA-mente-1Eu estive presente e farei um relato, na tentativa de contribuir com uma versão dos fatos. Não publiquei esse texto fora dos grupos fechados nas redes sociais antes para não expor os envolvidos, mas diante desta situação me sinto no dever de me posicionar.

Segue o relato:

Fui ao Alto Xingu como compositor que desenvolve uma pesquisa independente sobre música indígena. Não tenho nenhum vínculo com instituição ou academia e meu único intuito foi acompanhar o Kuarup. Saí de Belo Horizonte e fui para Cuiabá, no Mato Grosso. De lá peguei um ônibus até Canarana. Entrei em contato com a FUNAI e consegui autorização para entrar no Parque Xingu como visitante. O carro que sairia naquela tarde estava cheio. Foram nele representantes do Ministério da Cultura (MinC), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e da associação Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, parceira do MinC. Eu permaneci em Canarana e segui num dos carros da FUNAI junto com indígenas e funcionários no dia seguinte pela manhã.

Foram 320 km de estrada de terra com muita poeira. Chegamos na aldeia Kuikuro no meio da tarde e havia uma movimentação estranha. Quando nos demos conta percebemos que alguém estava passando mal. Era uma liderança Yawalapiti. Cerca de 50 indígenas, homens, mulheres e crianças estavam apreensivos em volta de uma rede. O homem tinha espasmos. Um médico cubano fazia massagem cardíaca no homem ainda deitado na rede. Sob pressão de todos, o médico estava visivelmente nervoso com a situação. Só depois de algum tempo deitaram o homem no chão para continuar a massagem. Novos espasmos. Mais choro. Em determinado momento o homem fica inerte e o médico diz que não há mais sinais vitais. Acabou de sofrer um infarte fulminante.

Chamaram três xamãs que ficaram a sós com o enfermo dentro de uma oca. Eles dizem que ainda há um sopro de vida e tentam em vão trazê-lo de volta. Muito choro. Há rumores entre os indígenas, eles suspeitam de um feitiço lançado por um inimigo. Visivelmente não aceitam a fatalidade e buscam uma causa, uma explicação. O coordenador do parque chama um avião que segue com o corpo para Canarana. Será enterrado no dia seguinte. Os Yawalapiti abandonam a festa para velar seu morto. Todos estão visivelmente inconformados.

Piracumã Yawalapiti tinha 60 anos. A família toda chora copiosamente o falecimento. Ele era uma das principais lideranças do Alto Xingu, interlocutor dos brancos, funcionário da FUNAI.

Paira a dúvida se ainda haveria Kuarup ou se ficaria suspenso o encerramento do luto. Várias etnias xinguanas cancelaram a participação mas os Kalapalo e os Matipu confirmaram a presença e os donos da festa decidem manter o ritual.

Esse ano o Ministro da Cultura iria para oficializar o reconhecimento do ritual como patrimônio imaterial. Um técnico do IPHAN foi para acompanhar o processo. A última visita de um ministro da Cultura ao Xingu foi Ana de Hollanda, que se recusou a receber uma carta das lideranças endereçada à Dilma. A liderança indígena que faleceu havia discutido com os representantes do MinC e da associação Cavaleiros de Jorge naquela mesma manhã sobre o processo de registro da cerimônia sagrada.

O Kuarup se inicia, os homens levam os troncos para o centro da aldeia e iniciam o ritual de homenagem aos mortos do ano anterior. No início da noite chegam os Kalapalo e Matipu que são recebidos numa dança ritual, deixam as oferendas, pegam o fogo e seguem para seus acampamentos próximos da aldeia. Próximo da Casa dos Homens continua o ritual que atravessa toda a madrugada com o recebimento dos presentes das tribos visitantes e em seguida o choro e o canto lembrando os mortos no ano anterior. Domingo pela manhã os guerreiros vão para o centro da aldeia e tem início o combate de Huka-Huka, tradicional no encerramento do Kuarup.

Pela manhã todos ainda aguardam o Ministro que não chega. Os índios lamentam o falecimento de Pirakumã e suas consequências imediatas. Dizem que muitos convidados não vieram e que a festa foi prejudicada. Incomodados com a presença e a postura do MinC questionam a presença e a função dos convidados da associação que foram levados, segundo eles, sem autorização da FUNAI. Questionam também a forma como os representantes do MinC encaminharam o processo de registro do Kuarup. Há definitivamente um mal estar com a presença e a forma de atuação do MinC e seus convidados. As lideranças afirmam que o Kuarup não pode ser registrado, que é cerimônia religiosa sagrada e que eles próprios estão fazendo um plano de gestão e não precisam do branco para registrar seus rituais. Uma liderança jovem, respaldada por todo o conselho de caciques, diz expressamente: “o MinC deve esquecer o registro e rasgar o papel. O patrimônio cultural do Alto Xingu não vai ser registrado por vocês”.

O clima pesa. Dizem que querem tratar do estrago da festa. Começa a ser esboçada uma espécie de tentativa de indenização. A associação convidada pelo MinC é cobrada pelos prejuízos causados na festa. Mais grave, eles são acusados de serem os responsáveis pela morte de Piracumã, que teria sofrido o ataque em decorrência da discussão com os representantes da Cavaleiro de Jorge e do MinC na manhã do dia anterior. É uma lógica estranha a quem vê de fora, mas naquela situação, para todas as etnias presentes, faz todo sentido e lhes parece justa. É formado um tribunal indígena com as principais lideranças para levantar as responsabilidades e julgar os acusados. O dono da festa diz que está cobrando o prejuízo dos preparativos, não a morte do homem. Isso cabe à família cobrar. Depois de muita discussão chega-se a um acordo envolvendo os indígenas e a associação. A FUNAI e o MinC assinam como testemunhas. Os representantes do MinC e da Cavaleiro de Jorge são liberados para deixarem a aldeia.

Apontamentos

Depois de refletir alguns dias sobre o que ocorreu na aldeia, cheguei a conclusão que a ação desastrosa do Ministério da Cultura, sem compreensão da complexidade da questão indígena, sem um alinhamento com a FUNAI – o órgão responsável por lidar diretamente com os índios – sem respeitar os trâmites do próprio IPHAN para o registro de um bem imaterial, colocou em risco a vida de pessoas, prejudicou o processo de registro que estava sendo negociado e causou uma situação embaraçosa para órgãos públicos e privados. Essa operação malograda certamente terá repercussão negativa entre outras tribos e pode comprometer tanto as iniciativas atuais como futuras ações. Funcionários da FUNAI, antropólogos e indigenistas com quem conversei sobre o assunto me confidenciaram que se o imbróglio tivesse acontecido com outras etnias, como os Xavantes ou os Kaiapos por exemplo, a situação poderia ter terminado de forma trágica. Os xinguanos são conhecidos pela sua diplomacia.

Makely Ka é compositor e escritor

contato@makelyka.com.br

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